sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Seminário Internacional “A presença econômica da China na América Latina”


Construção de uma agenda comum é política imediata para o movimento sindical latino-americano


Nesta quarta-feira (3), a RedLat (Rede Latino-americana da Pesquisas em Empresas Multinacionais) deu continuidade ao Seminário sobre a presença econômica chinesa na América Latina. O evento, que é organizado pelo Instituto Observatório Social, responsável pela Secretaria Operativa da rede, teve a apresentação do seu quarto painel “As relações econômicas entre Brasil e China: competição ou parceria” e contou com a presença de representantes dos três setores da sociedade, de forma democrática, cada um expondo as suas idéias.

O presidente da CUT, Artur Henrique, falou sobre a ascensão chinesa frente aos mercados latino-americanos e de que forma o movimento sindical vai atuar diante deste cenário. Para Artur, o fortalecimento do mercado chinês faz com que pensemos num novo modelo de ação. “A China conta hoje com um debate interno com a presença de trabalhadores, governo e empresários. Tudo bem que é muito menos do que gostaríamos, mas já são avanços que os coloca à frente neste processo estratégico. Temos que organizar uma rede de articulação para receber este desenvolvimento, com distribuição renda, melhores salários, melhores condições de trabalho e de vida, levando em consideração um desenvolvimento sustentável.”

Falando especificamente do mercado brasileiro, o presidente da CUT afirmou que vários setores da economia já foram atingidos pela influência comercial chinesa, afetando diretamente o movimento sindical. “O país asiático investiu em espaços no qual nós temos consolidadas as grandes organizações sindicais, com acordos positivos para o trabalhador, organização no local de trabalho. A vinda da China e sua política de mercado leva à degradação de parte destes setores. Este sim é um grande desafio.”

Durante a sua fala, Artur lembrou que este era o primeiro debate sobre a China onde o movimento sindical estava inserido. “Esta pesquisa feita pela RedLat, através dos institutos de pesquisas e centrais sindicais da América Latina, é de extrema importância. Mas não podemos parar por aqui. Temos que avançar, procurar outros caminhos, como por exemplo, reivindicar que os trabalhadores também participem das discussões comerciais.”

O diretor-presidente do IBECAP (Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico) e professor da Universidade Cândido Mendes, Severino Cabral, lembrou que a relação com a China vem de muito tempo, quando o trabalhador chinês migrou para o Brasil, mas a relação com o estado em si, data de 35 anos atrás, onde se iniciou este processo de mudanças e profundas transformações. “O Brasil estava passando por um processo de industrialização com grande produção de manufaturados e a China aproveitou o momento e abriu as portas para uma relação comercial.”

Para o representante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, João Rossi, a ascensão comercial da China como maior parceira do Brasil se deu num processo de queda das importações para os Estados Unidos. “Houve uma queda de 40% nas importações americanas enquanto que na China houve um movimento contrário, com o estreitamento dos laços de cooperação entre os dois países. Para 2010 o cenário aponta para a retomada dos Estados Unidos ao primeiro lugar.”

O secretário-executivo do Conselho Empresarial, Rodrigo Maciel, mostrou um estudo onde foram analisadas as possíveis áreas de exportações brasileiras para o país asiático. O trabalho listou 619 produtos, onde destes, 147 podem ser exportados hoje se o Brasil quiser. “Estes setores incluem máquinas e motores, eletroeletrônicos, tintas, cosméticos, produtos de higiene. São áreas bem abrangentes, que se mostram grandes oportunidades e desafios.”

Perspectivas para o movimento sindical

Através dos relatos de sindicalistas dos países da América Latina, o quinto painel, realizado no período da tarde, discutiu as perspectivas do movimento sindical latino-americano frente à ascensão chinesa. Presentes à mesa Aldo Strada, da CTA/Argentina; Carlos Cachón, PIT-CNT/Uruguai; Marcia Regina, da CNTV-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria Têxtil, Couro, Calçados e Vestuário da CUT); Raul Harari, FENACLE/Equador e Roberto Morales, CUT Chile, discorreram sobre o inicio tardio dedebates com um tema que muda o perfil das relações econômicas entre países.

Para eles, é preciso perder o medo e o preconceito contra a China, tomar estratégias que permitam salvaguardar os direitos dos trabalhadores e transformar essa ameaça em oportunidade.

Esse enfrentamento passa pela construção de uma agenda comum para os países da região, com desenvolvimento de novas pesquisas que tragam para mais perto as centrais sindicais latino-americanas. A iniciativa da RedLat é um ação pioneira neste mundo, mas não pode ser a única. Esta resolução, segundo os debatedores, tem que vir em conjunto com a realização de intercâmbios com a participação dos trabalhadores.

Ao final dos debates, o presidente do Instituto Observatório Social e diretor executivo da CUT, Aparecido Donizeti, lembrou que encontram-se em fase de construção Grupos de Trabalho (GT) com os ramos mais afetados pela ascensão da China. Estes grupos serão pautados em discussões periódicas com a participação da CUT e do Instituto Observatório Social. Neste sentido, ele saudou a presença de representantes dos trabalhadores da construção civil e da madeira (Conticom), metalúrgicos (CNM/CUT) e vestuários (CNTV).

Ações frente à globalização

O sexto e último painel do Seminário debateu os desafios do movimento sindical frente à globalização e a ascensão chinesa. De imediato, o que se percebe é a falta de conhecimento e informação sobre pontos de contato que possam gerar um processo de integração entre os trabalhadores ocidentais com o país asiático. As diferenças culturais e o atual estágio de desenvolvimento do trabalho na China são as principais barreiras apontadas pelos expositores.

O especialista em relações internacionais e consultor do Observatório Social, Kjeld Jakobsen, citou a necessidade de se consolidar parcerias com os trabalhadores chineses para que seja possível o aprofundamento das relações. Contudo, segundo ele, esse é o principal desafio: “O problema não é só o estado autoritário, mas a conformação da classe operária. Na China, a classe operária ainda não está sendo constituída. Estão agora no processo das grandes migrações de trabalhadores do campo para a cidade, o que, no Brasil, ocorreu nos anos 50 e 60.”

Para o coordenador político da Confederação Sindical dos Trabalhadores das Américas (CSA), Iván Gonzáles, é fundamental que os trabalhadores latino-americanos participem de forma ativa do processo de construção de um crescimento global sustentável, o que necessariamente implica uma aproximação com a China e seus trabalhadores.

Patrício Sambonino, consultor da FNV, a central sindical holandesa, alertou para a necessidade de se compreender a cultura e as diferenças entre a China e o Ocidente. “Nós ainda sequer entendemos a China. Para fazer uma análise desse país precisamos ser imparciais e ter uma visão real sobre o que está acontecendo”.

Essa é a grande pergunta: o que está acontecendo? “Não existem respostas”, alerta Sambonino. “Elas estão em construção. Precisamos nos organizar e buscar respostas”.


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