sexta-feira, 2 de abril de 2010

Grupo Experimental de Teatro Aldeato encena a morte de Cristo em Belém.


De todos os obstáculos que Jesus Cristo teve que enfrentar, lidar com a rotina de caminhoneiro definitivamente não foi um deles. Mas manter a principal fonte de renda da família, composta de mulher e quatro filhos, é a maior preocupação de Carlos Oliveira, ator que interpreta o papel do Messias no espetáculo “Paixão de Cristo em Canudos”, do Grupo Experimental de Teatro Aldeato, realizado pela Comunidade de Santo Agostinho da Aldeia.

Conhecido como “Jesus do Pará”, Carlos interpreta este papel há 13 anos. “A Paixão de Cristo já é cultura minha. Virou tradição”, diz ele. Nos três meses que antecedem a estreia do espetáculo, Carlos precisa se dedicar a ensaios diários. Nesse período, quem assume o volante da carreta é o seu irmão.

“Paixão de Cristo em Canudos” reúne 350 moradores, que ajudam a manter viva uma tradição que este ano completa 25 anos. O espetáculo, conta o diretor geral Aluízio Freitas, foi criado na Paróquia de Queluz. Começou com 13 atores, que se revezavam entre os papeis.

“Era tudo muito improvisado, não tínhamos nada, só uns panos velhos e um cenário de papelão”, diz Aluízio, que no começo interpretava Jesus. Em 1996 ele criou o grupo Aldeato, na tentativa de fazer uma adaptação digna da história que queria contar. E apesar de não se restringir às montagens religiosas, o grupo tem em “Paixão de Cristo em Canudos” sua produção mais importante.

Com 20 atores fixo, o grupo recebe nesta época do ano mais 80 atores, todos voluntários. O que começou com doações da comunidade, hoje custa R$ 15 mil reais, recurso obtido através das leis de incentivo estadual e municipal.

Para que sejam ouvidos pelo público, os atores gravam antes suas falas e fazem dublagem no palco. O resultado não é plenamente satisfatório, mas compreensível devido às distâncias percorridas (veja quadro).

Com o passar dos anos, Jesus Cristo é superstar

A encenação da Paixão de Cristo faz parte da liturgia cristã desde o século IV, mas ganhou popularidade durante a Idade Média. Conta a história da prisão, julgamento, sofrimento e morte de Jesus Cristo. Desde o início, as dramatizações fizeram um retrato detalhista das escrituras. Mas isso tem mudado com o passar dos anos.

Para Aluízio Freitas, manter-se fiel aos texto bíblicos oficiais é crucial, do ponto de vista religioso, mas em se tratando de entretenimento, nem tudo é sagrado. “O respeito à fé das pessoas é essencial. Para eles não é apenas uma peça, é um texto sagrado. Mas isso não impede que a Paixão sofra algumas pequenas mudanças no texto original”, diz ele.

Uma das cenas introduzidas pelo grupo mostra Jesus no Monte das Oliveiras, sendo tentado por Satanás, em forma de mulher. Quem interpreta o demônio de saias é a jovem atriz Cláudia Pacheco, que com um longo vestido vermelho, dança e acaricia Jesus de uma forma erótica, numa tentativa mal-sucedida de desvirtuá-lo de seu caminho.

“Não vejo problema nenhum em adicionar algo de novo. Essas cenas funcionam porque revitalizam o texto. A aceitação do público é boa, desperta um novo interesse e acrescenta algo de original à peça”, diz ela.

Já a Primeira Igreja Batista do Pará está organizando o projeto “Morreu por Mim”, que irá acrescentar à Paixão de Cristo teatro, coreografias e músicas cantadas por um coral.

“Temos uma visão moderna e progressista em relação à religião”, diz o pastor Vítor de Sá, incentivador do projeto. “Queremos que a nossa versão seja uma experiência artística completa, que todos gostem de ver, independentemente da religião”.

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