segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As Farcs, o Foro de São Paulo e o PT.

 
Ao acusar o PT de manter ligações com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ), vice do candidato tucano à Presidência, José Serra, retomou um assunto recorrente no imaginário político latino-americano.
A interação entre o partido e a guerrilha remete à criação do Foro de São Paulo, grupo fundado pelo PT em 1990, com o apoio do líder cubano Fidel Castro, para reunir a esquerda da região e discutir novos rumos ante a queda do campo socialista no Leste Europeu e o avanço de políticas neoliberais na América Latina.

Na ata do primeiro encontro, realizado na capital paulista em julho de 1990, as 48 entidades participantes reforçaram "a disposição das forças de esquerda, socialistas e anti-imperialistas do subcontinente de compartilhar análises e balanços de suas experiências e da situação mundial".

Além do PT, outras tradicionais agremiações marcaram presença, entre elas a Frente Ampla (Uruguai), o Partido Comunista de Cuba, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (Nicarágua) e o Partido da Revolução Democrática (México).

A participação das Farc, no entanto, é veementemente negada por Valter Pomar, membro do Diretório Nacional do PT e secretário-executivo do Foro. Ele também rejeita as afirmações de Indio da Costa. Segundo Pomar, o PT jamais manteve qualquer ligação com a guerrilha colombiana, que também nunca integrou o Foro.

- Nunca existiram elos políticos. As Farc não participaram da fundação do Foro de São Paulo.

As declarações de Indio tiveram o apoio de Serra, que cobrou explicações de Dilma Rousseff, sua rival na disputa pela Presidência.

- O que ele [Indio] falou foi uma banalidade, de que o PT é ligado às Farc. Estão devendo essa explicação, inclusive a Dilma, para dizer que eles não têm nada com as Farc.

Pomar, no entanto, vê nas acusações da campanha adversária apenas uma forma de esconder uma "situação de dificuldade". Em sua opinião, Serra se apoia em "argumentos de direita" e enxerga o contexto latino-americano a partir de uma ótica "imperialista".

- Uma campanha de direita usa argumentos de direita. Serra olha o mundo e a região a partir do ponto de vista dos Estados Unidos. O discurso internacional da campanha demotucana está a serviço destes interesses estrangeiros, interesses imperialistas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também entrou na polêmica, negando qualquer elo do PT com as Farc. Para ele, "nem Serra" acredita nisso.

- É bobagem. As pessoas podem não gostar do PT, ter divergências com o PT, mas achar que o PT tem ligação com as Farc é não conhecer a história do Foro de São Paulo, que coordenamos por mais de dez anos, e as Farc nunca tiveram participação.

Farc

No entanto, em uma mensagem datada de janeiro de 2007 e encaminhada à Mesa Diretora do Foro de São Paulo, que se reunia em El Salvador para um encontro do grupo, a própria guerrilha colombiana, que não participou daquele evento, manifestou insatisfação ante a postura de alguns ex-companheiros que defendiam seu afastamento.

"Achamos oportuno manifestar nossa inquietude e desagrado pela posição de alguns companheiros que, de maneira e sob responsabilidade pessoal, publicamente dizem que as Farc não podem participar do Foro, por ser uma organização alçada em armas", diz o texto.

Em seguida, os guerrilheiros justificam sua orientação sob o argumento de que "a luta armada não foi criada por decreto" e é consequência do quadro de violência que há décadas existe na Colômbia, que já custou a vida de milhares de militantes de esquerda.

Na mensagem, as Farc também lembram a importância do Foro de São Paulo no momento de sua criação, referindo-se ao grupo de discussão como “uma salvação e uma esperança”.

"É neste momento que o PT lança a formidável proposta de criar o Foro de São Paulo, trincheira onde pudemos nos encontrar, os revolucionários de diferentes tendências, de diferentes manifestações de luta e de partidos no governo, como no caso cubano", afirma a guerrilha.

O professor de Relações Internacionais Marcelo Santos, da Unesp, lembra que na década de 90, ainda sob influência da Guerra Fria, as forças de esquerda na região viam nas guerrilhas uma alternativa possível para chegar ao poder. Segundo ele, neste contexto, as Farc eram reconhecidas como uma força “interlocutora” dentro do Foro.

- [O Foro de São Paulo] era uma reunião de forças de esquerda, e a perspectiva da virada da esquerda no horizonte institucional era um caminho, mas ainda havia uma memória da Guerra Fria. A ideia da guerrilha como forma de chegar ao poder não estava totalmente abandonada.

Este panorama mudou, no entanto, na medida em que a esquerda passou a ocupar governos na região pela via institucional, por meio do voto. Com isso, perdeu força a opção pela insurgência armada.

- O que a gente verifica hoje é que essa saída guerrilheira sofreu uma derrota significativa do ponto de vista de adesão.

O pesquisador francês Daniel Pécaut, especialista em Colômbia e autor do livro "As Farc - uma guerrilha sem fins?", diz que a organização armada passou a sofrer, nos últimos anos, um processo de perda de prestígio.

- Essa atitude cautelosa frente às Farc está relacionada com o fato de que [eles] se meteram sempre mais no tráfico de drogas, o que mais recentemente implicou alianças de várias frentes com as redes de narcotraficantes e paramilitares. Em muitas áreas, o processo de degradação de sua luta está bem avançado.

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